“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

13 de jun de 2012

O crime não compensa


Essa vedete aí posando pra foto é a minha hortênsia na sua primeira florada. Estava fuçando nas minhas fotos quando me deparei com essa e pensei: Páaaaaaaara tudo! Bora contar essa história no blog.

Já contei aqui que Hortênsia azul é a minha flor predileta, mas por que raios então eu tenho uma Hortênsia branca e não azul?... É essa história que eu vou contar.  

Já começo rindo ao lembrar do meu marido me dizendo naquele dia: “você parece um para-raios de confusão!”.  E pareço mesmo, desgraçadamente!
Mas, vamos à história.

Era uma tarde de domingo num final de primavera. O dia estava lindo e minha filha me convidou para uma caminhada pelo condomínio.  Saímos eu e ela, e decidimos tomar o rumo das minas, a parte mais bela de todo o trajeto: bastante arborizada com lindas casas e jardins de tirar o fôlego.

Fazia tempo que não passava pelo local, e agora queria olhar tudo com passos lentos. Era primavera e as flores estavam exuberantes. Foi quando dobramos uma esquina que eu empaquei diante de um jardim. Parei no meio da rua totalmente hipnotizada por aqueles buquês que pareciam competir com o azul do céu. Eram as mais belas Hortênsias que eu já tinha visto em toda minha vida!

Minha filha que me conhece tão bem, foi logo dizendo: ‘Ah, não! Você não vai fazer o que eu estou pensando que você vai fazer... vai?  

Ela nem tinha terminado a frase e eu já estava agachada no meio do arbusto. Não resisti à tentação daquele azul.

A melhor muda é aquela que sai lascada do tronco principal – dizia a minha avó que, como eu, era louca por Hortênsia.  E já que tinha invadido o jardim alheio, não deixaria por menos, queria a melhor de todas. Segurei firme num galho e puxei com toda força.

Metade da planta saiu na minha mão!   

Apesar do delito eu estava tranquila. Era feriadão e não havia nenhum carro na garagem. Certamente que os moradores estavam viajando e só retornariam ao anoitecer...

Mas um poodle latiu. O maldito poodle da casa ao lado!

Logo um pinscher se juntou à ele numa sinfonia dos infernos. Exibi a careta mais feia que consegui para fazê-los parar, mas não adiantou. Duas criaturinhas microscópicas produzindo um som estridente, delator...

Uma mulher apareceu na janela, possivelmente a ‘mãe’ dos pestinhas. Ela me olhou com cara de estranheza. Talvez tentando imaginar o que eu fazia ali no jardim da vizinha com um enorme galho nas mãos.  Depois sacou o lance e balançou a cabeça levemente como quem diz sim senhora, que coisa  feeeeeeiaaaaaa...

Seria melhor que ela dissesse alguma coisa, mas não disse, continuava congelada naquele 'ar' de acusação. Desejei desintegrar no ar, virar fumaça. Então, decidi dizer alguma coisa, mas dizer o quê?

Enquanto pensava, imaginei que as duas vizinhas eram grandes amigas e, que costumavam tomar o chá da tarde naquela mesinha branca do gramado. Imaginei que quando a amiga voltasse de viagem ela diria ‘Olha, eu sei quem destruiu a sua Hortênsia. Foi aquela pintora esquisita que monta o cavalete lá na quadra... Aquela que usa um chapelão que mais parece um toldo...’

Vou dizer que preciso das folhas para fazer um chá para alguém muito doente - pensei. Essas coisas sempre comovem...

 Chá de Hortênsia?... Isso não cola, cola?

- É uma simpatia – disse eu com um sorriso meigo.
- Simpatia pra quê? – rasgou ela, secamente.
- Para a planta crescer bonita e saudável, oras!

Dizendo isso tratei de zarpar logo dali, mas levei comigo a minha muda. Como desgraça pouca é bobagem, me enrosquei toda nas Madressilvas e ainda pisei nas Prímulas que forravam o chão. Só desejava ganhar a rua e desaparecer com a minha filha.

Filha?... Cadê a minha filha??

Ela tinha ido embora. Me abandonou no pior vexame da minha vida.

Naquele mesmo dia plantei a minha muda feliz da vida e sem culpa nenhuma. Dois anos depois de muita expectativa minhas Hortênsias nasceram brancas. Brancas!!!  O azul que tanto me encantou e pelo qual arrisquei a minha integridade, nem sombra dele!  Acho que não mereci aquele azul.

O Jardineiro me disse que a culpa é da terra que está pobre. Pobre de ferro e zinco - frisou ele - antes que eu dissesse que enterraria umas notas de cem reais... rsrs. Segundo ele, uma receita infalível para as Hortênsias ficarem bem azuis é enterrar um objeto de ferro junto ao pé da planta. Já estou de olho na corrente que cerca o estacionamento do clube... Brincadeirinha.

10 comentários:

  1. rsrsr, mas que história bem contada! Mas eu não gostaria de morar no mesmo condomínio que você, desculpe! Não; até gostaria sim, eu já fiz dessas. Não poderia jogar pedra no seu telhado, o meu é de vidro, também. E que tremedeira, amiga! Mas você escreveu de uma maneira que nos leva a querer chegar a um flagrante! Ver sua desgraça. Mas o pior é a hortênsia ter nascido branca depois de tudo isso. E sua filha? Pô! Que amiga! rss A minha filha também se manda...

    Sueli, você tem uma maneira muito especial de contar o que muitos fazem e escondem; só por isso você tem 40 anos de perdão! Que para o próximo ano suas hortênsias mudem de cor...Você até que merece, afinal passou por uma nada boa!

    beijão, você 'mandou' muito bem, com muito humor.
    Tais

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  2. PAR TAÍS.
    Amiga, já não se fazem filhas como antigamente...rsrs. A minha me abandonou em pleno rabo de foguete! É isso que merecemos por sermos mães tão corretas, que dão bons exemplos rsrs.

    Vc tem cara mesmo de quem já roubou muda de planta, quanto a isso nunca me enganou! Já imaginou nós duas em Gramado? Vc tbm gosta de hortênsias? rsrs.

    Adorei seu comentário, apesar de confessar que quer ver minha desgraça... mas eu perdoo rsrs.

    Bjão pro cê!

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  3. Sueli, que texto maravilhoso de ler!!!! Nossa, li tudo num fôlego só, querendo te ver cada vez mais encrencada! kkkkkkkk

    Desculpa, mas Tais tem razão: seu jeito de relatar as coisas nos faz querer ver mais confusão! rsrsrsrs Fiquei imaginando tudo, a comédia que foi dar de cara com a vizinha tendo praticamente uma "árvore" nas mãos... O jeito seria recorrer a filha, mas... que filha?! kkkkkk Olha, você que me desculpe, mas sou solidária a pobrezinha: sairia correndo também! kkkkkk

    Por favor, continue aprontando outras dessas, e então vem correndo pro blog contar tuuuudo, e em detalhes! rsrsrsrs Bom demais te ler, sou fã assumida!

    Por fim, só posso desejar flores azuis no seu futuro próximo, antes que você e Tais resolvam circular pela região de Gramado e Canela e acabem com a beleza natural da região! kkkkk

    Beijão!

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  4. Eu amei, kkkk
    Divertido e ainda aprendi rs,rs já aconteceu de eu passar um trabalhão cavando e carregando vários dias uma "batata" de flor laranja e para minha decepção quando da florada foi vermelha com branco, rs,rs

    bjs e parabéns pelo maravilhoso texto.

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  5. Não consigo imaginar vc "roubando" qualquer coisa, mesmo uma muda de hortênsia azuis... Deve ter sido uma cena e tanto! Mas a sua nasceu branca porque vc é do bem, é da paz!
    Posso fazer uma sugestão? De outra vez, ptoponha uma troca por um quadro seu, tenho certeza que a pessoa vai sair muito bem no negócio.
    Bjão
    Adh

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  6. ã parte teu delito, toda a narrativa foi de uma gostosura tão grande de ler, que concordo sobre tua maneira de escrever e prender a gente até a última palavra - e que seja logo pra saber o desfecho!!!....rsrsrs

    Em Gramado eu desci do carro algumas vezes pra tirar fotos em meio da profusão de hortênsias, e não pensei em trazer um galho...tsc tsc...que distração a minha...rsrsrs

    Adorei te ler (de novo!), beijos Sueli!

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  7. Que coisa feia Sueli! Ao mesmo tempo, tão prazerosa, rsrs. Minha sogra costuma dizer que muda boa tem que ser roubada, boa desculpa para quem tem esses ataques incontroláveis.
    Belo texto e pode ficar à vontade e contar outras peripécias, ok?

    Beijos

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  8. NÉIA, querida, eu cresci ouvindo minha avó e minha mãe dizendo que muda roubada é tiro e queda! É só plantar que pega! Foi por isso que disse que era simpatia (roubar) pra planta crescer bonita e saudável rsrs.

    Bjos, amiga. Sempre bom ver vc por aqui!

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  9. Ah, Xará, mas quem é que nunca fez uma "malandragenzinha" nesta vida! E quem vai negar que essas "malandragenzinhas" não são as nossas melhores recordações?... Adorei sua estória e estou rindo até agora da situação...rs

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  10. Sueli você é única!...
    É um puro Dom, da arte, da pintura, da poesia, da palavra, o que mais?...
    Passei por uma ainda pior, há dois anos atrás no carnaval com a casa cheia, sai com a sogra da minha filha para dá uma volta e mostrar o paraíso onde moro, um verdadeiro pedacinho do céu, pontinha araruama RJ. Vendo uma planta linda bem junto ao muro e a casa totalmente fechada, não resisti, peguei um galho, minha acompanhante hesitante fez o mesmo. Não demos dois passos, do outro lado da rua, um pouco mais a frente, saiu à dona da casa acompanhada de varias pessoas, A primeira coisa que falou foi que tinha comprado àquela planta, e que eu fizesse o mesmo, totalmente sem graça pedia desculpas, ela continuava esbravejando, que desculpa nada! Sua isso! sua aquilo!... Saímos andando sem graça com a planta ma mão, mas logo adiante jogamos fora. Muito envergonhadas decidimos não contar para ninguém o ocorrido.
    Bjos

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Sejam bem vindos! Sintam-se a vontade. Comentem, digam o que pensam. Podem rodar a baiana, só não cutuquem a onça com vara curta, ok?... rs